top of page

O avião que caiu com duas bombas nucleares na Carolina do Norte

  • Foto do escritor: José Fernandes Reis
    José Fernandes Reis
  • 17 de set. de 2024
  • 3 min de leitura


Em 24 de janeiro de 1961, um dos incidentes mais alarmantes da Guerra Fria ocorreu sobre o estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Um bombardeiro B-52 Stratofortress, que realizava uma missão de patrulha aérea armada com duas bombas termonucleares Mk39, sofreu uma falha estrutural que levou à sua queda nas proximidades de Goldsboro. Esse acidente, que poderia ter resultado em uma tragédia de proporções inimagináveis, revelou o quão próximo o mundo esteve de uma detonação nuclear em solo norte-americano.


O Contexto da Guerra Fria


Nos primeiros anos da década de 1960, o mundo estava imerso na tensão da Guerra Fria, um período marcado pela rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética. Ambas as potências estavam em uma corrida armamentista que incluía a produção e o desenvolvimento de armas nucleares, com o objetivo de dissuadir o adversário de qualquer ataque.


O bombardeiro B-52, uma das principais plataformas de lançamento de bombas nucleares dos EUA, realizava missões regulares de patrulha aérea, conhecidas como *Chrome Dome*, que consistiam em voos contínuos com armamentos nucleares a bordo, prontos para serem usados a qualquer momento caso um conflito com a União Soviética se tornasse iminente.


O Acidente


Na noite de 23 para 24 de janeiro de 1961, um B-52G, que sobrevoava a Carolina do Norte, enfrentou problemas estruturais após sofrer uma falha no sistema de abastecimento de combustível. O avião começou a perder altitude rapidamente, e a tripulação tentou manter o controle da aeronave, mas a situação se deteriorou. A aeronave partiu-se no ar, forçando os oito tripulantes a se ejetarem. Três deles não sobreviveram.


No momento do acidente, o bombardeiro estava transportando duas bombas termonucleares Mk39, cada uma com uma potência estimada de 3,8 megatons — aproximadamente 260 vezes mais potente que a bomba lançada sobre Hiroshima. Ambas as bombas se soltaram da aeronave durante a queda. Embora elas estivessem equipadas com múltiplos mecanismos de segurança projetados para evitar uma detonação acidental, o que aconteceu com uma das bombas revelou o quão vulnerável o mundo estava à beira de uma catástrofe.


O Perigo Nuclear: Quão Perto Chegamos?


Das duas bombas, uma delas teve seu paraquedas acionado e foi recuperada praticamente intacta. No entanto, a segunda bomba foi encontrada profundamente enterrada no solo, e as investigações subsequentes revelaram que ela havia chegado perigosamente perto de explodir.


A bomba termonuclear Mk39 tinha quatro dispositivos de segurança para prevenir uma detonação acidental. Três desses dispositivos falharam durante a queda, restando apenas o último interruptor de segurança a impedir a ativação do mecanismo de detonação. A ativação do interruptor final teria resultado em uma explosão nuclear em solo americano, causando uma devastação total em uma vasta área, que poderia incluir as cidades de Raleigh, Carolina do Norte, e até mesmo partes de Washington, D.C., dependendo da direção dos ventos.


A magnitude desse risco ficou evidente quando, em 2013, documentos desclassificados do governo dos EUA confirmaram o quão próximo o mundo chegou de uma tragédia. O engenheiro de segurança do governo, Parker F. Jones, que analisou o incidente em um relatório secreto, afirmou que “uma simples mudança de sorte” impediu que uma explosão nuclear ocorresse.


O Legado do Acidente de Goldsboro


Embora o acidente de Goldsboro tenha sido contido sem a detonação das bombas, o evento levantou sérias questões sobre a segurança das armas nucleares e as práticas de transporte e armazenamento adotadas durante a Guerra Fria. O incidente reforçou a percepção pública de que a ameaça nuclear não vinha apenas de uma guerra deliberada, mas também de acidentes ou erros humanos.


Após o acidente, o governo dos EUA revisou suas políticas de segurança e procedimentos para o manuseio de armas nucleares, embora as missões de patrulha armada continuassem por muitos anos. O incidente de Goldsboro também serviu como um alerta para a necessidade de mecanismos de segurança mais robustos em bombas nucleares, levando ao desenvolvimento de tecnologias mais avançadas de controle e prevenção de acidentes.


O local onde a segunda bomba foi encontrada ainda guarda uma lembrança duradoura do incidente: parte do núcleo da bomba nunca foi completamente recuperado, e a área permanece monitorada para garantir que não haja risco de contaminação radioativa.


Conclusão


O acidente de Goldsboro de 1961 representa um dos momentos mais assustadores da era nuclear, quando o mundo quase foi abalado por uma explosão nuclear acidental em solo americano. Apesar das falhas nos sistemas de segurança da época, a sorte e o último mecanismo de prevenção impediram o que poderia ter sido uma catástrofe de proporções devastadoras. Esse evento é um lembrete de que, além das tensões geopolíticas, a ameaça nuclear durante a Guerra Fria também estava presente nos riscos de acidentes, ressaltando a necessidade de contínua vigilância e controle sobre os armamentos mais destrutivos já criados pela humanidade.

 
 
 

Commentaires


bottom of page